Ternura

Ternura
"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieto,
muito quieto
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora." - Vinícius de Moraes - —

O TEU PERFUME

O teu perfume
é diferente de todos os perfumes…
perdura e percorre o tempo,
perfura dolorosamente cada momento
e afecta afectos,
povoa a memória com saudade,
tem o poder de marejar os olhos,
de afogar a fala,
de obstruir a garganta,
de devorar a distância
e, mesmo assim, perfumar…

O teu perfume persiste
porque, apesar de estar longe,
ainda existe,
porque se expande e agiganta,
criando raízes
que alastram e bifurcam,
porque é diferente de todos os outros,
renasce a cada dia que passa
e agarra-se à vontade de não partir,
de existir,
no doce sabor que liga tenazmente
a criança que é
à criança que deveria ter sido…

O teu perfume é diferente
porque tem partículas da tua pele,
porque é o aroma do teu corpo,
porque faz chorar de solidão,
porque faz sorrir em doce emoção!

O teu perfume é diferente
porque nunca me permite ser de mim ausente!

Autor: Vítor. C